O que o look da primeira-dama Michelle Bolsonaro nos diz sobre a estratégia de imagem (do presidente)?

Sei que estou alguns dias atrasada, muito já se comentou sobre o assunto, mas vou pegar o gancho do look usado pela Michelle Bolsonaro no evento da posse presidencial, no dia 1º de Janeiro, para fazer aqui uma rápida análise da estratégia por trás da escolha visual da Primeira-Dama e do contexto em que ela se encaixa. O vestido em zibeline acetinado em tom rosé que Michelle usou na ocasião ganhou os holofotes pela elegância, mas a peça traz muito mais informação sobre a função da primeira-dama no governo Bolsonaro.
Comecemos pelo vestido em si: o corte estruturado e a gola ombro a ombro de linhas retas são elementos que conferem poder, autoridade, autoconfiança e credibilidade ao look de Michelle, percepções bastante convenientes de se explorar em momento de grande visibilidade como o que ela enfrentou, discursando em Libras, antes mesmo do marido tomar a palavra. No entanto, o tom clarinho de rosa, os ombros à mostra e o cabelo solto, levemente ondulado na laterais reforçam as energias femininas na sua figura, equilibrando as intenções. É justamente nesse equilíbrio quase matemático – que ora reforça, ora neutraliza elementos visuais – que mora parte de uma estratégia de imagem do próprio Presidente, cada vez mais pensada e bem articulada.
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Após o evento da posse, os comentários gerais eram de que Michelle seria uma Primeira-Dama proativa, com grande envolvimento nas questões sociais (lembra das linhas retas que comunicam autoconfiança e força?). Também comentou-se que, ao contrário do que se supunha, ela tem voz ativa na vida do casal, faz suas próprias escolhas e não é submissa (aqui, o decote deixando os ombros em evidência adiciona um quê de sensualidade, elemento mais do que alinhado a premissa de uma mulher confiante e dona de si). A cor delicada, por fim, nos informa que ela está confortável em seu papel de esposa, mãe, e agora primeira-dama. Isso tudo seriam apenas detalhes, mas quando uma escolha visual vem atrelada a um plano consistente de posicionamento de imagem pessoal (ainda que de outra pessoa, quando diretamente relacionada), tudo faz sentido.
Não foi à toda que Michelle foi a primeira a discursar. Também não foi ao acaso que ela escolheu falar em linguagem de sinais. Para quem tem um olhar um pouco mais atento, é possível perceber que essas foram decisões estratégicas: Michelle é peça-chave para reverter a imagem truculenta e polêmica de Bolsonaro e humanizá-la, por isso ela vem ganhado mais espaço nos últimos tempos, na mesma medida em que o canditato evitava situações de grande exposição no final das eleições. Por fim, ele cede o momento ápice da sua trajetória, a posse como Presidente, para deixar a esposa brilhar e ser notada por sua elegância, discrição e envolvimento com causas sociais. É ou não é uma jogada de mestre? Um caso bem interessante de como a imagem pessoal de um é usada a favor de outro!
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Finalizo aqui lembrando que minha intenção nesse post é analisar as ações de gestão de imagem e validar se funcionam ou não, sem entrar em opiniões políticas. A ideia é mostrar com exemplos práticos que é possível explorar a identidade visual como ferramenta de comunicação, de forma estratégica, quando se tem objetivos claros. Mas é preciso que as ações corroborem as informações comunicadas na imagem pessoal, para que o resultado seja real, consistente e efetivo a longo prazo.
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